A Presa: Capítulo 04 – Teegan

“Ali está ele,” anunciou Gene no corredor. Olhava para Caleb que se dirigia ao seu armário. Caleb ficou como que em estado de choque. Se eu pudesse teria convenci­do Gene a ser mais sutil, assim Caleb não ficaria tão as­sustado. Gene se curvou de maneira ridícula no meio do corredor, na frente de metade da escola. “O maestro da moda,” anunciou Gene em voz alta. Todo aquele peque­no grupo se voltou para Caleb e viu seu rosto vermelho.

“Mano, venha aqui,” gesticulou Gene para que Caleb se aproximasse, “estou tentando explicar a estes caras os seus talentos ocultos. Eles pensam que estou doido, mas na noite do baile nós vamos ver quem é o garanhão.” Sa­mantha riu, e todo mundo sorriu em volta. Caleb se aproximou, meio na dúvida, quase sem desviar seu olhar do meu; mantive-o firme com um sorriso.

“Ainda vai tocar no sábado?” perguntei com convicção. Eu queria que todo mundo soubesse que ele era bem-vindo, e não somente por causa da escolha de um smoking.

“Tocar o quê?” questionou Amanda. Caleb teve então que dar conta de todas as perguntas sobre seu show de sábado à noite. Mesmo ele insistindo em minimizar, para nós uma performance profissional era coisa de um astro do rock. Meus amigos, de repente, respeitavam Ca­leb. Porque isto me alegrava tanto, eu não fazia idéia. Al­guma coisa nele simplesmente anunciava amizade. Eu percebia, mesmo sem a conexão, a felicidade dele ao ser incluído. Adorava seu humor malicioso, mesmo suspei­tando que só metade era intencional.

“Não, eu juro,” disse Gene, “estávamos perdidos, e este cara simplesmente arrumou uma roupa de 007 que ficou perfeita em mim. Fiquei igual ao Daniel Craig, prestes a salvar o mundo.” A gargalhada foi geral, e nela havia uma simpatia por Caleb. Eu podia jurar que ele ficava mais alto com a fala de Gene. Fiquei me perguntando se alguma vez ele já tinha recebido publicamente uma de­monstração de amizade.

“Quem você vai levar ao baile?” perguntou Amanda ao Caleb. Eu sabia que Amanda só queria que todo mundo soubesse que o Trent Peterson a tinha convidado, e pre­cisava de uma desculpa para falar do assunto. Se eu pu­desse, eu a faria engolir de volta a pergunta. Foi difícil para Caleb achar uma resposta: seu rosto ficou todo ver­melho e seu olhar mergulhou no chão. Ele não estava preparado para perguntas diretas e idiotas, jogadas as­sim sem pensar. Para minha surpresa, ele levantou os olhos e encarou Amanda.

“Não convidei ninguém ainda,” disse Caleb, “tenho uma pessoa em mente, mas, para ser franco, estou criando coragem.” A segurança no seu olhar era quase uma pro­vocação para obrigá-la a comentar.

“Que raios, cara,” se intrometeu Gene, “o tempo é curto. Até parece que alguém vai lhe dizer não.” Gene se adian­tou e passou o braço pelo ombro de Caleb. “Se ela arrasa seu coração, então ela não vale a pena.” Todo mundo riu. A última pontinha de inveja que eu tinha pela Samantha desapareceu no charme de Gene. Quase lhe dei um beijo por tratar Caleb como um irmão de fato.

“Acho que é só convidar,” disse eu. Não queria que Caleb acabasse sem par, como eu. Ele tinha alguma coisa, uma intensidade, que eu nunca tinha visto antes. Não mere­cia ficar sozinho. Todos estavam de acordo, e alguns até sugeriram jeitos inusitados de fazer o convite. Senti que Caleb estava sendo esmagado. A sorte dele foi que o si­nal tocou e tivemos que ir pra aula.

***

“102?” exclamou Gene no instante em que Caleb entrava no refeitório. Eu vi Caleb ficar com o rosto vermelho, mesmo ele fingindo que a pergunta não era com ele. “Que diabos? Como alguém consegue tirar 102 numa prova do Prichard?”

“Shh,” disse eu, tentando acalmar Gene. Guardar as pró­prias opiniões para si não era o forte dele.

“Sr. Haverston!” gritou o Sr. Sampson de um canto da sala. “Linguagem!” O Sr. Sampson era o vice-diretor, e auto-decretado monitor do refeitório. Ninguém gostava muito dele, mas todos escutavam quando ele falava. Gene revirou os olhos e acenou para Caleb. Mudei mi­nha cadeira de lugar para abrir espaço para Caleb, e ele se sentou ao meu lado.

“Consegui algum crédito naquela questão extra,” disse Caleb. “Desculpe,” acrescentou, envergonhado de ter es­tragado a curva.

“Você agora é oficialmente a pessoa mais inteligente que eu conheço,” disse Gene. “Quem me dera ter metade do seu cérebro.”

“É que eu estudo muito,” disse Caleb.

“Estudei pra caralho e só tirei 71,” disse Gene, meneando a cabeça. “Você compreende essa merda melhor do que eu.”

“Deve ser porque ele não acha que é merda,” disse. Sor­rimos juntos, Caleb e eu.

“Ora, Sra. 86,” rebateu Gene, “nem todos nós adoramos matemática.” Samantha veio com uma bandeja conten­do uma fatia de pizza de pepperoni e uma caixinha de leite.

“Oi Gene, Teegan,” disse Samantha; depois, olhando para Caleb, “Einstein.”

“Deixe-o em paz,” falei rindo, “ele não vai estragar uma prova só pra aumentar as nossas notas.”

“Nem eu,” disse Gene. “Eu ia passar voando com meu cérebro por cima de todos vocês.” Samantha riu. Pela cara que Gene fez, eu acho que ele pensou que ela estava rindo dele.

“Eu não faço isso para ganhar nada,” disse Caleb. “Os problemas apenas se encaixam, como a música. Simples­mente sei o que tem de vir depois. Gosto do fluxo.” Caleb tirou um sanduíche e um refrigerante de dentro da mo­chila.

“Então me ensine,” falou Gene, dando uma mordida no próprio sanduíche. Caleb ergueu os olhos, surpreso. Gene levantou as sobrancelhas, como quem espera resposta a uma pergunta.

“Que?” atrapalhou-se Caleb. Gene sorriu, terminando de mastigar.

“Estou quase abaixo de C na aula do Prichard,” disse Gene, “não é exatamente o caminho para uma bolsa de estudos. O basquete só vai até um ponto. Bem que eu poderia contar com uma ajuda para a próxima prova.”

“Não sei se posso ensinar isto,” admitiu Caleb.

“Sou tão ruim,” riu Gene, “que você não tem nada a per­der.”

“Um grupo de estudos?” sugeriu Samantha, olhando para mim. Assenti, e aquele sorriso estranho surgiu no rosto de Caleb. Podia jurar que era para mim, pelo jeito que os olhos dele vieram na direção dos meus. Tinha uma sinceridade, mas sem confiança, e por isto parecia um sorriso estranho.

“Tá bom,” respondeu Caleb para Samantha. Nada de he­sitação na resposta, só no olhar. Me veio um desejo es­quisito de arrumar seu cabelo rebelde atrás da orelha. Precisava talvez de um corte um pouquinho diferente para destacar seus traços. Pisquei e desviei o olhar, me perguntando o porquê de eu estar tão incomodada com a aparência dele.

“Massa,” acenou Gene antes de dar outra mordida no sanduíche. Marcamos as reuniões para toda terça à noite na casa do Gene. Prichard sempre aplicava algum tipo de prova às quartas, o que seria um bom teste para o grupo de estudos. Caleb e Gene saíram logo, pois tinham ainda uma boa caminhada até o local da educação física, e nos deixaram sozinhas – Samantha e eu – por alguns minutos.

“Cuidado,” disse Samantha, “ele gosta de você.”

“Quem?”

“Einstein,” respondeu Samantha, indicando com os olhos a porta por onde Gene e Caleb estavam saindo.

“Como amigo, talvez,” eu ri. “Mal conversamos em todos esses anos de escola. Não fosse pelo shopping, duvido que soubéssemos sequer que o outro existia.”

“Uh, ele sabe que você existe,” disse Samantha com um sorriso. “Você não vai vê-lo no sábado?”

“Veja, ele vai ficar no palco,” me defendi, “e eu vou ser um rosto amigo. Apoio apenas. Além do mais, escutei al­guma coisa do Smooth Gliders no YouTube. São bons pra caramba, e eu não recuso shows gratuitos.”

“Acho que você tem um encontro com um nerd da mate­mática,” riu Samantha.

“Deus!” falei ficando de pé, “quando você acha que tem algum apoio de uma amiga…” A raiva irrompeu sem mo­tivo. Eu sabia que Samantha estava brincando, mas to­mei aquilo mais como um insulto. E se fosse um encon­tro, seria tão ruim? Não estava claro nem mesmo se eu achava que era um insulto a Caleb ou a mim.

“Desculpe,” disse Samantha, toda séria de repente. “Só estava brincando.” Deu a volta na mesa e me abraçou. A raiva se foi.

“Nada de demonstrações públicas!” gritou o Sr. Samp­son.

“Tá,” disse Samantha revirando os olhos, “como se fosse virar uma cena lésbica aqui no refeitório.” Desfizemos o abraço em meio às risadas dos alunos em volta que ouvi­ram Samantha.

“Na minha sala, Sra. Bennett,” disse o Sr. Sampson, in­dicando o caminho. Ele ouviu também. Samantha rece­beu meu olhar solidário e acompanhou o Sr. Sampson para um sermão chato sobre linguagem politicamente incorreta e insubordinação. Não aconteceria nada além de tédio. O Sr. Sampson só latia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s