A Presa: Capítulo 03 – Caleb

Fugi dali assim que pude. Pela primeira vez na vida, não abusei da acolhida. Gene Haverston em pessoa me cha­mou de super-amigo. Eu sabia que era gozação, mas era bom ouvi-lo dizer em voz alta. Gente desse tipo não cos­tuma perder nenhum tempo com gente como eu. Pode ser que estejamos só ficando mais velhos.

Fiz Teegan Fuller sorrir. Acima de tudo, isto foi a minha maior vitória. Isto e o fato dela não ter par para o baile. Quase não consegui parar de sorrir feito bobo no cami­nho até o carro. Eu conversei mesmo com ela, e ela ia me ver tocar. Era como um sonho virando realidade. Minha mãe já tinha me contado que meu último ano ia ser o melhor. Com o sofrimento acumulado dos anos anterio­res, era difícil de acreditar. Sempre achei as pessoas es­túpidas, e quando eu tentava me rebaixar virava um bobo. Hoje eu descobri que as pessoas não eram estúpi­das. São diferentes, e bobeira era não aceitar isto.

Destino. É a única palavra que pode definir os eventos do dia. O dentista marcado para o dia anterior, e que eu achava uma chatice, na verdade foi uma benção. Já que a sala de espera estava lotada, tive que ler aquele velho exemplar da GQ para não ficar entediado. Nunca que eu imaginaria um artigo sobre smokings tendo alguma im­portância na minha vida. Eu nem mesmo pensava em ir ao baile.

Fiz uma piada e Teegan riu. Quase dei uma de idiota desfazendo a impressão de expertise em smokings, mas algo me impediu. Algo que me disse para deixá-la rir. Deixá-la se alegrar. Inacreditável como era bom ouvir sua risada junto comigo.

A cerca de dois quarteirões do shopping um som insis­tente invadiu meus pensamentos. Tinha esquecido de colocar o cinto. Dei risada. Teegan ocupava minha men­te, obscurecendo o resto. Duas vezes eu quase contei. Duas vezes segurei a língua. Agora ela ia me ouvir tocar. De tão feliz, fiquei mudo.

Fui dirigindo até em casa com o alarme do cinto de segu­rança ligado. Não tinha vontade de obedecer regras, e li­guei o rádio para que a música encobrisse o alarme. Eu era rebelde por um dia, me arriscando numa boa.

“Pegou as meias?” perguntou minha mãe quando entrei em casa.

“Não,” respondi. Nada do que eu anotei eu fiz. Tudo o que eu desejava eu consegui. Cheguei perto do sofá e de­volvi os quarenta dólares que mamãe tinha me dado. Foi um prazer a cara de interrogação dela. Nem sei quando foi a última vez que eu não fiz o esperado.

“Que vai fazer sem meias?”

“Ficar descalço,” respondi e corri para o meu quarto. Eu estava ousado. Parecia mentira que eu tinha enfrentado o Gene no shopping. O comentário nem era muito dife­rente de outros que eu tinha engolido antes. Desta vez, Teegan estava ali. Pela primeira vez, ela me observava. Eu tinha certeza que ele ia me socar. Mas ele riu, e fica­mos mais iguais de algum modo. Teegan fez isso.

Eu sabia que ainda não dominava nada. Não era um pe­rito em pessoas. Foi por isto que saí quando saí, antes de cometer algum erro fatal. Durante anos fiquei de longe observando Teegan. A perfeição dela me entontecia. A maioria não reparava. O jeito dela se mexer, dela olhar para as pessoas, de sua voz soar tão distinta das outras vozes. Tudo nela era especial.

Somente uma entidade sabia da minha obsessão. Pala­vra feia, obsessão. Nunca a persegui. Alguma coisa nela bagunça meus pensamentos. Eu só tirei um ‘B’ este ano. Só um, e eu sabia o porquê. Esbarrei em Teegan na saída da classe, e trocamos desculpas. Do jeito que sou tolo, durante a prova eu só consegui pensar no braço dela en­costando no meu.

Coloquei meu telefone para despertar em três horas. Não queria mandar muito rápido a informação sobre o concerto. Tenho que manter o meu desejo sempre a uma certa distância de Teegan. Se ela não sentisse o mesmo, eu não queria lhe causar desconforto de jeito nenhum. Minha obsessão tinha sanidade: ou era mútua ou nada. Um certo receio começou a rondar a minha mente. Logo eu descobriria se era mútua. Se era só do meu lado, eu sabia que o dano ao meu coração seria irreparável.

Meu diário era bem escondido. Meus pais nem sabiam que existia. Tirei a grade da saída de ar do piso. Enfiei a mão e peguei meu caderno secreto. Por três anos eu to­mei notas da minha vida nesse caderno, praticamente sem pular nenhum dia. Muita coisa era banalidade, mas a maior parte dizia respeito a uma garota impecavel­mente perfeita. O caderno era a única entidade que co­nhecia os meus segredos.

Abri numa página em branco e escrevi a data. Sem saber como iniciar, passei a folhear os dias anteriores e ler as anotações. Visões de Teegan misturadas com outros eventos do dia. Voltei mais para trás, onde eu começava a descrever meus sentimentos por ela. Palavras bobas, porém exatas. Na primeira página estava escrito assim:

‘Vi-a hoje. Como não tenho coragem de falar com ela, o resultado pode não ser o que eu quero. É confuso. Ne­nhuma outra menina me afeta assim. Noto a beleza nas outras, desejo o contato delas, mas Teegan Fuller é especial e única. Ela me enfeitiça.’

Ao fechar o caderno, pensei no que tinha escrito. Tantos anos e só agora eu tinha trocado mais do que uma pala­vra com ela. Tinha chegado a hora de descobrir a verda­de, sem mais criancices.

Minha mãe ficou ligeiramente surpresa ao me ver abrir o gás da lareira. Amassei uns jornais e enfiei sob a grelha.

“Meio quente pra acender o fogo,” disse mamãe. Até hoje ela só tinha visto o meu eu racional. Ela não iria me impedir, mas ainda assim percebi uma preocupação.

“É preciso,” disse eu colocando o diário sobre a grelha. Tirei um fósforo da caixa e acendi.

“Está queimando o quê?” perguntou mamãe, sentando-se assustada.

“Meu diário,” respondi. As chamas consumiram rapida­mente o jornal e depois o caderno começou a queimar. Sentei na borda de pedra que contornava a lareira. Pri­meiro as chamas ficaram com um azul diferente por cau­sa da capa, depois assumiram um laranja vivo.

“Qual o problema?” perguntou minha mãe, chegando mais perto. As meias eram só a ponta do iceberg. Agora eu fazia mais coisas estranhas, e ela estava confusa.

“Estou apaixonado,” contei-lhe. “Vou descobrir se é pra valer neste fim-de-semana.” Mamãe colocou a mão em meu ombro.

“E se não for?” perguntou ela.

“Daí estou perdido,” disse eu, “e tenho que começar do zero.”

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