A Presa: Capítulo 02 – Teegan

“Duas horas,” lembrei ao Zane depois de estacionar em frente ao Dick’s Sporting Goods. Duas horas zanzando por aquele shopping era muito, mas se eu andasse bem devagar poderia matar o tempo.

“Três,” negociou Zane desafivelando o cinto.

“Duas, ou vai andando pra casa,” insisti. Ele sorriu, sa­bendo que eu não teria coragem de cumprir a ameaça.

“Ligo pra você em duas,” disse Zane, e correu antes que eu pudesse combinar direito. Em duas horas ele me liga­ria e tentaria esticar o relógio. Suspirei e contornei o shopping com o carro para estacionar ao lado da Macy’s. Eu estava de olho em algumas botas. Se estivessem em oferta, a viagem não seria de todo perdida. Já que eu es­tava levando Zane para lá e para cá, mamãe não teria como negar.

Fui até o departamento de calçados com a loja vazia. Era muito melhor andar pelos corredores sem ter que dri­blar carrinhos e sacolas. Logo encontrei as botas: couro marrom, fivela de latão para prender as cintas de couro – meio inúteis – acima do tornozelo. Era uma bota de cano alto que combinava muito bem com as minhas sai­as. As linhas eram bonitas, e iriam modelar bem minha panturrilha. Só que o preço de 260 dólares estava acima do que mamãe toparia, especialmente não sendo aniver­sário ou Natal.

“Ficariam bem pra caramba em você,” ouvi atrás de mim. Reconheci a voz de Samantha e me voltei sorrindo.

“Ficariam mesmo, né?” concordei. Samantha balançou a cabeça. Vi suas mãos trançadas com as de Gene, mas ainda assim não desfiz meu sorriso. Fiquei desapontada por ela estar com alguém, e odiei meu ciúme. “Oi, Gene.”

“Oi, Teegs,” disse Gene, tirando com a outra mão o cabe­lo ruivo de cima dos olhos. Ele tinha um desses rostos esculpidos que eu não sabia dizer se era belo ou não. Claro que não era feio, nem mesmo mediano, mas algu­ma coisa na simetria não estava bem ajustada.

“Meio além do meu orçamento hoje,” acrescentei, devol­vendo a bota à vitrine. “Os dois vieram fazer compras?”

“Só passeando,” sorriu Samantha. Notei o olhar estra­nho que Gene fez, como que sem compreender. Saman­tha apertou forte a mão dele. Seu rosto relaxou, e ele deixou passar.

“Vestido do baile?” perguntei. Samantha não queria me recordar que eu não tinha par.

“Smoking,” respondeu Samantha quase triste. Eu a ado­rei e detestei ao mesmo tempo. Seu tom não era de pie­dade, mas de arrependimento. “Procurando botas?” per­guntou ela, tentando mudar de assunto.

“Não, chauffeur,” respondi, “Zane está por aí zanzando.”

“Ele ainda não tem carteira?” perguntou Gene, soltando a mão de Samantha e me fazendo sentir – estranhamen­te – um pouco melhor.

“Daqui a cinco meses,” respondi meneando a cabeça, “mas não sei se vou ficar mais feliz, porque daí teremos que dividir o carro.”

“Olhe,” disse Gene, “nós estamos perdidos. Talvez você possa ajudar, se tiver um tempinho.” Os olhos dele eram sinceros, Samantha parecia hesitante. “Uma segunda opinião não seria nada ruim,” acrescentou Gene olhando para Samantha, depois para mim. Eu não sabia se queria me meter nesse negócio de smoking do Gene. Ser vela não era interessante.

“Seu gosto sempre foi melhor que o meu,” disse Saman­tha. “Seria bom ter a sua ajuda.” A voz dela era de súpli­ca sincera, e eu tinha duas horas para gastar.

“Tem certeza que não vou atrapalhar?”

“Não se você souber alguma coisa sobre smokings,” disse Gene.

“Por favor,” disse Samantha, sorrindo e me encarando de um jeito que só eu entenderia. Não era um olhar de ‘cai fora’; era uma expressão de ‘por favor, venha comi­go’.

“Bom”, eu disse, “não sei o que está na moda, mas posso vetar as porcarias.” Gene sorriu e balançou a cabeça. Sa­mantha agarrou-me pela mão e me puxou pelo corredor. Pelo menos eu não ia nadar o dia todo em auto-piedade.

No caminho até a loja de roupa social, discutimos a pro­va de pré-cálculo do Sr. Prichard. Todos concordavam que foi muito difícil, e que trouxe questões nunca discu­tidas nas aulas. O Sr. Prichard era um gênio da mate­mática e achava que o mundo inteiro adorava aquilo tanto quanto ele. Sempre usava uma gravata-borboleta e começava o dia com ‘Senhoras e senhores, bem-vindos ao universo dos números.’ ‘Bem-vindo ao inferno’, era o que quase todos nós pensávamos.

“Ele vai ter que fazer a curva de notas,” disse Gene, ten­tando convencer mais a si mesmo do que a nós. Os pais dele o forçaram a assistir às aulas de AP. Ele sempre fa­zia um esforço para manter a cabeça fora da água.

“Sempre tem um que arrebenta a curva,” disse Saman­tha, virando a cabeça. “Não é mesmo, Caleb?” Quando me voltei, achei Caleb McGuire nos seguindo a cinco passos atrás de nós. Seu rosto virou uma mistura de dez tons de vermelho, e ele ficou procurando uma resposta para dar. Caleb era brilhante nas aulas. Socialmente, não tinha grande presença. Aquilo da Samantha chamá-lo ti­nha evidentemente causado uma dor quase física nele.

“Eu estraguei a questão que dava um crédito extra,” dis­se Caleb defensivamente. Seu cabelo negro caía desajei­tadamente sobre as orelhas, mais ou menos como se ele estivesse tentando deixá-lo crescer. Do lado esquerdo era torto, entrecortado de fios esvoaçantes.

“Você estragou a curva?” perguntou Gene em tom amea­çador. Foi uma surpresa quando Caleb não se retraiu. Mesmo sem conhecê-lo muito, imaginei o temor que ele sentiria perto de um grandalhão como Gene. Caleb toca­va violino na orquestra da escola. Gene fazia basquete e atletismo.

“Talvez,” respondeu Caleb decidido, “já que não consigo enterrar, detono nas provas.” Sua postura me surpreen­deu. Não era uma ameaça, mas era como um paredão. Ele não estava a fim de recuar diante das palavras de Gene. Caleb era do meu tamanho, chegando mais ou menos no ombro de Gene.

“Touché,” riu Gene. Caleb se soltou e sorriu. Samantha respirou aliviada. Ela não sabia como Gene reagiria. “Você sabe alguma coisa sobre smokings?” perguntou Gene.

“Tanto quanto eu sei sobre enterrar,” admitiu Caleb.

“Bom,” disse Samantha, “mesmo assim venha conosco. Pelo menos não precisa ficar nos seguindo.”

“Não estava seguindo,” defendeu-se Caleb, seu rosto en­rubescendo de novo.

“Venha,” disse eu, “assim não fico sobrando. Não gosto de me sentir vela.” Caleb não era bem do meu círculo de amizade, mas fiquei impressionada por seu caráter; e também eu queria que Samantha parasse de provocá-lo. Não sei se ele podia se defender de uma mulher. Ele se animou imediatamente e concordou. Seu sorriso me pa­receu meio exagerado: só estávamos indo comprar um smoking.

“E aí,” disse Gene logo que o quarteto voltou a caminhar, “quando é que vamos conhecer esse cara da faculdade? Ouvi dizer que ele joga pela Notre Dame.” Foi a minha vez de corar.

“Do que é que você está falando?” perguntou Samantha confusa, olhando para Gene e depois para mim. Suspi­rei.

“Ouvi dizer que o par de Teegan vai para Notre Dame,” respondeu Gene para Samantha. Ela me olhou, prova­velmente se perguntando porque eu não tinha lhe conta­do.

“Disseram que ele é o left tackle reserva,” acrescentou Caleb.

“Não tem nenhum cara da faculdade,” disse eu, “Zane inventou isso, e a coisa se espalhou.” Caleb, estranha­mente, sorriu de novo. Dei as costas para ele, sem enten­der o que ele achava de engraçado na minha falta de par.

“Por que ele fez isso?” perguntou Samantha.

“Mason Crawford lhe perguntou se eu tinha um par para o baile,” respondi.

“Esse é um estúpido,” falou Samantha. Concordei.

“Zane não sabia o que fazer, então inventou um cara maior que o Mason,” disse eu. Gene riu, e Samantha deu-lhe um soco no ombro.

“Por que não me contou?” exigiu Samantha, dirigindo-se ao Gene.

“Vocês são super amigas,” defendeu-se Gene, “pensei que eu era o último a saber.” Samantha virou-se para mim.

“Só descobri agora no carro,” disse, encolhendo os om­bros.

“Por isso é que ninguém convidou você para o baile,” disse Samantha, chegando mais perto de mim. “Deus! Eu já estava pensando que todos os caras eram estúpi­dos.”

“Acho que eu vou descartar esta mulher violenta,” disse Gene esfregando o lugar que Samantha tinha esmurra­do, “e acompanhar você ao baile.” Samantha ainda olha­va para mim, de costas para Gene. Eu via seu riso, mas Gene só a via parada.

“Estou brincando, Sam,” implorou Gene. Samantha se virou e lhe mostrou o sorriso. Naquele segundo eu achei que eles iam fazer alguma demonstração pública bem melosa. Mas não: ele ofereceu a mão e ela pegou. Parece que é o jeito deles perdoarem as pequenas coisas.

“A loja é virando logo ali,” disse Caleb, apontando. Seu rosto ainda mostrava aquele estranho sorriso malicioso. Era meio desconfortável, mas ainda assim nós fomos atrás dele.

Ficamos todos ocupados em olhar os manequins, ten­tando imaginar como ficariam os smokings em Gene. Não parecia haver atendentes livres naquele momento. Samantha não estava contente com nenhum modelo, e Gene parecia completamente deslocado. Eu descartei al­guns de cara, mas estava na dúvida quanto ao resto.

“Qual é a cor do seu vestido?” perguntou Caleb, de re­pente. Ele estava olhando para Samantha, que parecia surpresa com a pergunta.

“Off white,” respondeu ela, “eu acho que eles chamam de champagne.” Caleb assentiu e andou por um corredor como se a informação fizesse algum sentido. Remexeu numa prateleira enquanto nós tentávamos fazer cara de inteligente. Eu não sabia que havia tantos estilos assim. Para cada modelo que a Samantha apontava, o Gene sempre sacudia os ombros.

“Aqui,” disse Caleb, entregando ao Gene um conjunto de cabides cheios de roupas. Mais uma vez eu fiquei im­pressionada pela confiança do rapaz. Faz anos que o vejo na escola, e nunca soube que ele tivesse uma idéia pró­pria. Evidentemente, eu nunca passei tempo algum com ele antes. Gene encolheu os ombros e foi com as roupas ao provador.

“Achei que você não soubesse nada sobre smokings,” fa­lei baixinho ao Caleb. Samantha estava distante umas três fileiras, ainda hipnotizada pelo número de opções.

“Sei tudo sobre enterrar,” sussurrou Caleb, “só não sou alto o suficiente para fazê-lo.” Cobri minha boca e segu­rei a risada. Nova surpresa: um nerd da orquestra com senso de humor.

“Depois da formatura, você vai aonde?” perguntei, apro­ximando-me. A piada tinha encolhido meu espaço pes­soal. Caleb estava virando uma dessas pessoas surpreen­dentes que você acaba querendo conhecer melhor.

“Não sei,” disse Caleb, se afastando um passo para exa­minar um smoking na outra ponta da prateleira. “Fui aceito no MIT, mas meus pais querem que eu vá a Stan­ford.” Arregalei os olhos. Não sabia que ele era inteligen­te assim. Achava que ninguém em minha escola ia para escolas desse tipo.

“Uau,” foi só o que consegui dizer. Caleb encolheu os ombros.

“Eu preferia Northwestern,” suspirou Caleb. “Adoro vio­lino, mais que matemática, e lá eles têm um programa do caramba.” Quando ele me olhou, vi tristeza em seus olhos. “Meus pais só enxergam cifrões.”

“Contou a eles?” perguntei, mais interessada do que de­veria; tinha acabado de conhecê-lo.

“Já,” respondeu Caleb, balançando a cabeça. Só pela ex­pressão dele, vi que os pais reprovavam a idéia. Não gos­tei da resignação.

“Sabe de uma coisa,” disse eu, amenizando o tom, “acho que nunca ouvi você tocar. Escutei a orquestra, claro, mas você sozinho não.”

“Toco no sábado,” disse Caleb, “o Smooth Gliders me convidou.” Seu olhar era de apreensão. “Bom, o saxofo­nista, pelo menos.”

“Por dinheiro?” perguntei. Eu não sabia que ele tão bom.

“Desta vez não,” sorriu Caleb, “mas eu já fiz casamentos e outras coisas.” Ele tinha orgulho de ser músico. Estava em seu tom de voz.

“Mas como é que você faz? Improvisa junto com eles?”

“Mais ou menos,” respondeu Caleb, voltando-se para mim, “o saxofonista, Tom, deu uma conferência em um workshop de música no ano passado. Eu estava lá, e uma coisa que ele tocou mexeu muito comigo.” Ele deu um largo sorriso. “Sabe quando uma canção meio que agarra você?” Assenti, entendendo exatamente o sentido daqui­lo. “Era algo como uma obra em andamento; ao invés de almoçar, Tom e eu improvisamos.” Caleb deu uma risa­dinha ao lembrar. “Foi como se eu soubesse a direção da melodia. É bem estranho juntar violino e sax, mas deu certo. Estamos trocando e-mails até hoje.”

“Vai tocar para uma platéia?”

“Claro,” disse Caleb, “a música é para os ouvidos. Quan­to mais, melhor.” Eu nem imaginava o que era subir no palco e tocar para uma multidão. De novo a confiança dele me impressionou. “É só um número secundário, nada de primeiro plano, mas vai ser divertido tocar com um profissional.”

“Uau,” disse eu novamente. Caleb, na minha cabeça, es­tava abaixo na escala social. Mas agora eu me pergunta­va se não era eu quem estava abaixo. O colegial chegan­do ao fim e a ordem normal se desintegrando a olhos vistos.

“Se você quiser escutar,” disse Caleb, a voz sumindo aos poucos enquanto falava, “posso arrumar um lugar.”

“Claro,” concordei, “prometo um aplauso de pé pelo me­nos.” Nem sei quanto tempo fazia que minhas palavras deixavam alguém feliz fora da minha família. Seu rosto se iluminou, e ele ficou até mais alto.

“Jóia,” disse Caleb, “me dê seu número que eu lhe man­do mensagem quando chegar em casa.” Eu ainda estava lhe dando o número quando Gene saiu do provador.

“Caraca,” disse Samantha alto demais. Gene ouviu e er­gueu as sobrancelhas. Virou-se para o conjunto de três espelhos.

“Caraca,” repetiu Gene. Estava mais que bonito, ainda que as calças precisassem de ajuste. O paletó preto de dois botões era curto, na altura da cintura. Uma camisa muito branca de colarinho inglês estava bem presa com uma gravata-borboleta champagne. Entre a camisa e o paletó estava um colete champagne de quatro botões. Acho que o Gene nunca ficou tão bonito.

“Você, cara,” disse Gene ao Caleb, “é meu novo super amigo.”

“Ficou mesmo muito bom,” disse eu. “Talvez você deva jogar a Samantha fora.”

“Tire os olhos daqui, menina,” disse Samantha, correndo para o Gene. “Este é meu.” Foi a primeira vez que as bo­chechas do Gene mostraram alguma cor. “Juntos nós va­mos ficar uma beleza,” continuou Samantha, acariciando o paletó. A alegria dela era contagiante. Dei-lhe um sor­riso verdadeiro e o meu ciúme idiota finalmente foi para escanteio.

“Pareço o 007,” disse Gene sorrindo.

“Tem que combinar com a seda no bolso,” disse Caleb, adiantando-se.

“A o quê?” perguntou Gene.

“Lenço,” explicou Caleb, “ele fica para fora do bolso. Tipo o 007.” Gene riu, e Samantha concordou com a ca­beça. Ainda foi preciso uma hora para tirar as medidas de Gene e aprontar seu smoking, com a seda no bolso, para o baile. Caleb foi embora nesse meio-tempo. Perce­bi que ele achava forçada sua presença em nosso grupo. Eu não quis deixá-lo desconfortável, e não o dissuadi. Só fiz questão que ele me mandasse os detalhes do concer­to.

“Você marcou um encontro com o nerd da matemática?” perguntou Samantha, surpresa.

“Não o chame assim,” falei rápido. Muito rápido, talvez.

“Desculpe.”

“Não é um encontro,” emendei. “Ele vai tocar numa ban­da de verdade, e eu vou junto para apoiá-lo.”

“Bom, ele tem mesmo aquele cabelo tipo Beatles,” riu Samantha.

“Pare,” disse eu rindo junto com ela. Era verdade.

“O cara tem bom gosto para roupas,” disse Gene, che­gando perto.

“Tem mesmo,” disse Samantha, agarrando a mão de Gene. “Pensei que ele não sabia nada sobre smokings.”

“Tanto quanto ele sabe sobre enterrar bolas de basque­te,” disse eu, escondendo o riso.

“Bom, devo uma a ele,” disse Gene. “Pelo menos não vou ficar parecendo um nerd no baile.”

“Você vai comigo,” vangloriou-se Samantha. “Só isto já elimina qualquer nerdice.” Eu ri mais alto do que deve­ria.

Pontualíssimo, Zane me ligou no horário combinado e suplicou mais uma hora. Como eu estava de bom humor, topei. Era gostoso sentir o acesso de aprovação de ma­mãe e papai com a felicidade de Zane. De vez em quando não era uma amolação.

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